sexta-feira, 5 de abril de 2013

Perversão da utopia


Jeferson Miola [[*]]
Publicado na Agência Carta Maior
: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=6038


Leonardo Padura, escritor cubano, é autor da magnífica obra “El hombre que amaba a los perros”. Na 1ª edição desse livro, no agradecimento à esposa Lucía, que “me suportou nestes cinco anos de tristezas, alegrias, dúvidas e medos, nos quais dediquei manhãs, tardes, noites e madrugadas a gestar, a dar forma e a arrancar de dentro de mim esta história exemplar de amor, de loucura e de morte”, Padura revela a confiança em que o livro “aporte algo sobre como e por quê se perverteu a utopia ...”.
O autor de “El hombre que amaba a los perros” é transparente quanto à motivação intelectual para a feitura do livro: “utilizar a história do assassinato de Trótsky para reflexionar sobre a perversão da grande utopia do século 20”, quer dizer, a degeneração totalitária e a degradação ética e moral da Revolução Russa de 1917 que se sucedeu com o regime estalinista, e que vinculou indelevelmente [e nefastamente] o ideal socialista à experiência do chamado “socialismo realmente existente”.
Com uma técnica narrativa magistral, o livro biografa em simultâneo a vida do revolucionário bolchevique Leon Trótsky e do seu verdugo, o agente soviético Ramón Mercader Ríos - catalão de nacionalidade e dono de muitos codinomes: Jacques Monard, Frank Jacson, Jaime López, Ramón Ivanovitch López, Ramón Pavlovich ...
Ramón Mercader foi recrutado em 1936 pelo serviço secreto soviético no front da Serra de Guadarrama na Guerra Civil Espanhola, e conduzido para Moscou, onde receberia um especial treinamento. Nos anos de preparação para a macabra operação, Mercader se metamorfoseou em um ser assustadoramente sinistro, dono de muitas personalidades e ardis, e adestrado para executar a “nobre tarefa em nome do proletariado mundial”. O planejamento meticuloso, a arquitetura e o timing para o assassinato de Trótsky obedeceram a ordens diretas e ao monitoramento de Joseph Stálin.
O assassinato foi finalmente consumado em agosto de 1940. Ramón Mercader, infiltrado no círculo de relações pessoais de Trótsky a partir do envolvimento afetivo calculadamente estabelecido com a militante trotskista Sylvia Agelof em Paris alguns meses antes do assassinato, se tornou confiado perante a segurança pessoal de Trótsky, e passou a gozar de relativa facilidade de ingresso na casa de Coyoacán.
Na tarde de 20 de agosto, pretextando levar para a revisão de Trótsky um artigo sobre dissidências trotskistas nos EUA que foi deliberadamente mal escrito, Ramón provocou o encontro fatal com o velho revolucionário. Enquanto Trótsky lia o artigo sentado na escrivaninha do seu escritório, Ramón o golpeou mortalmente por trás, atingindo sua cabeça com uma picareta de alpinismo.
Ramón foi surpreendido pela incrível reação de Trótsky. Mesmo atingido mortalmente, Trótsky soltou um grito retumbante de raiva e dor, e mordeu a mão com que Ramón segurava a picareta, para prevenir um novo golpe. Quando seus guarda-costas adentraram no escritório, Trótsky ordenou aqueles que devem ter sido seus dois últimos pedidos: que impedissem seu neto de assistir a cena, e que mantivessem Ramón vivo, porque assim poderiam conhecer a verdade sobre a trama arquitetada doentiamente por Stálin.
Ironicamente, Ramón Mercader sobreviveu graças à decisão da sua própria vítima, de deixá-lo vivo. Não sem o castigo, todavia, de ouvir todos os dias, até os últimos dias da sua vida, aquele perturbador uivo estridente, e de ver sempre aquela cicatriz na mão direita como uma lava incandescente a lembrar o horror estalinista. Nos 20 anos de prisão no México depois de condenado por homicídio, manteve-se leal e devoto à “causa”: ocultou sua verdadeira identidade e protegeu os autores intelectuais e mandantes do crime. Em 1960, uma vez libertado e expulso do México, se radica na URSS – o único país do mundo que lhe concedeu abrigo.
Ao longo dos últimos 70 anos, foram produzidas importantes obras biográficas sobre Leon Trótsky. Valem ser destacadas a trilogia de Isaac Deutscher [O Profeta Armado, O Profeta Desarmado e O Profeta Banido] e vários escritos de Pierre Broué.
Mas a isenção teórica e ideológica do autor de “El hombre que amaba a los perros” distingue esse livro pela fidelidade histórica de raro valor – diferentemente dos outros dois excelentes autores citados, Padura é um intelectual não filiado à tradição trotskista, e que por décadas não pôde acessar a literatura trotskista em sua natal Cuba.
Esse distanciamento de Padura em relação a Trótsky e ao trotskismo assegura à narrativa uma mirada crítica e não romantizada da trajetória do líder da Revolução Russa e do Exército Vermelho. “El hombre que amaba a los perros” descreve vários erros cometidos por Trótsky nos anos iniciais da Revolução Russa, se detendo especialmente no exame do papel desempenhado pelo Exército Vermelho no massacre de milhares de marinheiros durante a Revolta de Kronstadt, em março de 1921.
El hombre que amaba a los perros” é um livro primoroso e atrevido, que interpela a história em busca da verdade sobre um dos fatos mais marcantes do século 20 e que envolveu um dos maiores personagens do socialismo de toda a história. É, ainda, um eficiente libelo contra a deturpação ideológica que, desonestamente, busca confundir a experiência trágica do terror estalinista com os ideais de uma democracia socialista ainda não vivenciada verdadeiramente pela humanidade.


[[*]] Foi Coordenador Executivo das edições do Fórum Social Mundial realizadas em Porto Alegre, Brasil, nos anos de 2001 a 2005.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Crimes imprescritívies e puníveis


Publicado na Carta Maior - http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=5992

Jeferson Miola [1]
Por estos muertos, nuestros muertos
pido castigo.
Para los que de sangre salpicaron la patria
pido castigo.
Para el verdugo que mandó esta muerte
pido castigo.
Para el traidor que ascendió sobre el crimen
pido castigo.
Para el que dio la orden de agonía
pido castigo.
Para los que defendieron este crimen
pido castigo.
No quiero que me den la mano empapada con nuestra sangre
pido castigo.
No los quiero de embajadores
tampoco en su casa tranquilos.
Los quiero ver aquí juzgados
en esta plaza en este sitio.
Quiero castigo,
quiero castigo.
Extrato de “Los Enemigos”, de Pablo Neruda, em Canto General, Canto V – La arena traicionada.

Em 22 de fevereiro de 2013, a Suprema Corte de Justiça [SCJ] do Uruguai proferiu sentença que fez o Uruguai mergulhar de volta no pesadelo do obscurantismo, da impunidade e da injustiça. Quatro dos cinco juízes daquela Corte violentaram a história e a justiça decretando como inconstitucionais os artigos da Lei 18.831 de 2011 que restabeleciam a punibilidade para os crimes cometidos pela ditadura civil-militar uruguaia [1973 a 1985]. Navi Pillay, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, entende que a decisão contribui para “restabelecer as sombras da impunidade”.
Como todas as transições conservadoras que foram consentidas pelas elites nacionais em cada um dos países das Américas Central e do Sul, no Uruguai a transição negociada para a etapa pós-ditatorial indultou criminosos através da Lei da Caducidade, de 1986.
O diversificado léxico empregado pelas classes dominantes de cada país – anistia, “olvido”, indulto, obediência devida, caducidade, etc – em quaisquer dos casos não oculta o objetivo essencial e comum: proteger as maquinarias de terror empregadas no desenvolvimento capitalista dependente e subordinado aos EUA.
A Lei 18.831, entretanto, restituiu a “pretensão punitiva do Estado” que havia sido sequestrada pela Lei da Caducidade e que, por isso, impedia o julgamento dos crimes de terrorismo de Estado. A Lei reconheceu, ainda, aqueles crimes como de lesa humanidade, em linha com a Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos Crimes Contra a Humanidade, da qual o Uruguai é signatário.
De acordo com o direito internacional humanitário - que por estar incrustrado no ordenamento jurídico interno do Uruguai, deve ser obedecido pelo país -, os crimes de lesa humanidade são imprescritíveis e, portanto, puníveis a qualquer tempo. É essa base jurídica moderna que permitiria, na improvável hipótese de encontrar-se algum nazista vivo nos dias atuais, julgá-lo pelos crimes praticados, mesmo depois de 70 anos do final da Segunda Guerra.
A decisão da Suprema Corte do Uruguai não pode ser tomada como um episódio isolado. Ainda neste mês de fevereiro, o tribunal declarou inconstitucional o imposto sobre a concentração de terras, decisão que beneficia uma minoria privilegiada de 1.200 pessoas proprietárias de quase 40% da superfície agrícola do país e que compromete uma estratégia de distribuição de renda e de justiça social.
Há poucos dias, numa arbitrária decisão administrativa, a Corte transladou a juíza Mariana Mota do Juizado Penal para o Cível - se suspeita que devido à atuação técnica independente da juíza Mariana na investigação de mais de 50 violações dos direitos humanos cometidas na ditadura.
Para entender essa delicada situação, é importante identificar o nexo entre a origem social e política dos juízes e a natureza das decisões conservadoras da Corte. No Uruguai, o acesso à carreira jurídica não se dá por concurso público, mas sim por indicações pessoais e discricionárias. A nomeação dos juízes da Suprema Corte é feita pela Assembléia Nacional mediante 2/3 de votos favoráveis, o que obriga a arranjos e concessões políticas desfavoráveis mesmo para os partidos que ocupam eventualmente a maioria simples do Parlamento. Dos atuais cinco juízes da Suprema Corte, quatro deles construíram suas carreiras no período ditatorial.
Até mesmo uma consciência pueril consegue entender a razão para as férreas resistências dos setores conservadores dos países da região ao direito à memória, à verdade, à justiça e à reparação. As ditaduras civis-militares instaladas nas décadas de 1960 a 1980 viabilizaram os principais conglomerados industriais, comerciais, financeiros e especialmente as oligarquias agrícolas, agrárias e midiáticas que exercem enorme influência política e decisivo controle de áreas-chave do aparelho de Estado ainda na atualidade. O Judiciário, assim como outras instituições políticas, está na órbita dessa influência e controle.
Existe uma abismal dissonância entre o atual estágio de desenvolvimento político, cultural e social das nossas sociedades e as estruturas de Estado erigidas no passado. Os atuais governos herdaram estruturas que emperram a realização dos projetos democrático-populares. É uma lógica idiossincrática que segue beneficiando sobretudo os poderes midiático, corporativo-empresarial, financeiro, legislativo e judiciário - que deveriam ser profundamente reformados, à luz de uma visão positiva sobre o progresso social. É notável a coordenação dos monopólios da mídia, o Poder Judiciário, certos segmentos empresariais e partidos políticos de direita no engendramento de iniciativas contra os governos progressistas da região.
Setores majoritários do Poder Judiciário estão distanciados da modernidade e alheios às conquistas iluministas do século 18, tornando-o uma instituição embolorada, presa a ritos obsoletos e a um hermetismo que mal consegue disfarçar seu reacionarismo e seu caráter elitista. Da suntuosidade dos seus edifícios, da pomposidade das suas liturgias e da solenidade arrogante de sentenças recheadas com expressões em latim, francês e italiano, emanam violências distintas na forma, mas igualmente mortíferas para a democracia e para a história, como o foram os crimes de terrorismo de Estado.
Apesar das gigantescas dificuldades, esse não pode ser considerado, em absoluto, um cenário de derrota da democracia. O Estado uruguaio, através do seu governo, e fortalecendo sua soberania altiva, pode reivindicar a hieraquia dos tratados internacionais em matéria humanitária sobre a legislação doméstica, visto ser signatário de convenções e tratados do gênero.
Além disso, pode ser evocada a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre o caso Gelman [2], que em 2011 sentenciou o Estado uruguaio a reconhecer de forma pública o cometimento de crime de terrorismo de Estado, obrigando-o ainda a garantir que a Lei da Caducidade não obstacularize a investigação e condenação dos crimes praticados durante a ditadura.
A obstrução do direito à verdade, à memória, à justica e à reparação é um obstáculo real à afirmação democrática e à passagem ao futuro. Como diz Neruda, o poeta revolucionário e humanista: “por estos muertos”, por nuestros muertos, pido castigo”!
Ver os torturadores “en sus casas tranquilos” é uma inaceitável ofensa moral e ética a toda a humanidade. É necessário vê-los “aquí juzgados, en esta plaza, en este sitio”.


[1] Foi Coordenador Executivo das edições do Fórum Social Mundial realizadas em Porto Alegre, Brasil, nos anos de 2001 a 2005.
[2] Ação impetrada por Juan Gelman e sua neta Macarena Gelman na CIDH. A mãe de Macarena, Maria Cláudia Garcia de Gelman, após parir a filha num centro de detenção clandestino em Montevidéu, foi morta e a criança ilegalmente doada,vindo a conhecer sua família biológica somente aos 23 anos de idade. O pai de Macarena, Marcelo Gelman, foi torturado e morto no Centro Automotores Orletti, em Buenos Aires. Ambos haviam sido presos no contexto da Operação Condor.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Acordo EUA e União Européia [1]



Jeferson Miola [2]

Na esteira da mais profunda crise no centro do capitalismo, EUA e União Européia dão um passo arrojado com a assinatura do acordo de livre comércio entre essas duas regiões dominantes da economia mundial. O anúncio não significa a efetiva viabilidade do acordo, pois as vantagens competitivas dos EUA na agricultura, nos serviços e na indústria são enormemente desiguais, fator que pode eventualmente desencorajar sua adoção por uma Europa que efervesce na crise.
Nos últimos meses os EUA têm dado mostras de estar conseguindo manejar, ainda que tibiamente, a situação da sua economia, “passando da UTI para a enfermaria”; ao passo que a Europa continua enfrentando ameaças formidáveis, que vão da recessão duradoura às possibilidades de dissolução institucional e monetária.
As escolhas políticas aplicadas tanto nos EUA como na UE, que preservam os fundamentos especulativos do capital financeiro e priorizam medidas recessivas e supressoras de direitos sociais [o emprego é a principal evidência], enfraquecem a eficácia do enfrentamento da crise. Na UE, devido à moeda única, as dificuldades são ainda maiores.
Neste contexto de alternativas limitadas pelo revigoramento dos venenos neoliberais, o acordo entre os EUA e a UE adquire especial transcendência para ambos, e impacta fortemente a dinâmica do comércio mundial. O fluxo de comércio entre as duas regiões é nada menos que superlativo: aproximadamente 2 bilhões de dólares diários. Ou seja, num único mês supera o comércio interno anual do MERCOSUL, que ronda os 53 bilhões de dólares.
Esta zona transatlântica concentrará a área de maior capacidade tecnológica mundial e sedimentará a aliança estratégica para o exercício da hegemonia imperial nos campos da economia, da geopolítica, da cultura e bélico. A efetivação desse acordo esteriliza o papel da OMC e acaba com as aspirações dos países do Sul geopolítico, de aproveitar o comércio internacional como vetor para o desenvolvimento.
No fundo, a aliança EUA-UE concretiza importantes prioridades da política externa estadunidense. Significa a expansão do seu domínio na Europa para, desse modo, ombrear com a China na disputa por mercados e para assim também preservar sua enorme capacidade de determinação dos rumos dos assuntos internacionais.
O acordo com a UE é o segundo movimento significativo dos EUA no período recente. Em 2012, logrou criar a Aliança do Pacífico entre Chile, Colômbia e Perú com o México, seu sócio latinoamericano no NAFTA. A Aliança do Pacífico é o principal êxito da política estadunidense no hemisfério americano desde o fracasso retumbante da ALCA. É um enclave dos seus interesses na América do Sul, justo no momento histórico de maior potencial de conformação de uma comunidade de nações sulamericanas.
Esses dois movimentos combinados, que estendem “as asas” dos EUA de oeste a leste, do Pacífico aos Atlânticos Norte e Sul, conformam a mais extensa área de atuação de um único país em todo o Ocidente. E representa o fortalecimento da hegemonia ocidental liderada pela potência imperial justo no momento de levantes e turbulências no mundo islâmico.
Esta realidade coloca os países sulamericanos em posição de defesa e resistência, da mesma maneira que obriga a uma intensificação das relações Sul-Sul no comércio, na política e na cooperação. O MERCOSUL, que é o epicentro do processo de integração sulamericana, assume uma importância ainda mais transcendental nesta etapa do jogo geopolítico. A incorporação imediata da Bolívia e do Equador como sócios plenos e a manutenção dos atuais países integrantes, é um imperativo para a expansão territorial, econômica e política do bloco. É pura miragem imaginar acordos benéficos do MERCOSUL e seus países com as potências mundiais e seus blocos regionais.
A formulação de uma estratégia sulamericana de desenvolvimento a partir do MERCOSUL, que seja baseada em uma visão de economia política, aprofundando convergências em investimentos, infra-estrutura, tecnologias, ciência e políticas sociais, é condição essencial para a defesa da região frente à crise e à nova realidade.
Nunca antes a exigência de uma economia política em lugar das visões livre-comercistas e tecnocráticas foi tão aguda como no presente.



[2] Exerce a função de Diretor da Secretaria do MERCOSUL em Montevidéu. Este texto expressa opiniões de caráter pessoal que não devem ser consideradas como sendo da Instituição.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O PT na contramarcha da liquefação política


Jeferson Miola [*]



Se o “espírito” era “moderno”, o era enquanto estava decidido que a realidade se emancipasse da “mão morta” de sua própria história ... e isso só poderia ser logrado derretendo os sólidos [quer dizer, dissolvendo tudo aquilo que persiste no tempo e que é indiferente à sua passagem e imune ao seu escoamento]. Essa intenção requeria, por sua vez, a “profanação do sagrado”: a desautorização e a negação do passado e, primordialmente, da “tradição” - isto é, o sedimento e o resíduo do passado no presente. Portanto, requeria, da mesma forma, a destruição da armadura protetora forjada pelas convicções e lealdades que permitiam aos sólidos resistirem à “liquefação”.
... ...
... ...
O que foi quebrado já não pode ser colado. Abandonem toda a esperança de unidade - tanto futura como passada - vocês, os que ingressam ao mundo da modernidade fluida.

Zygmunt Bauman, em “Modernidade Líquida”.



1.
O julgamento do STF marca o fim de uma etapa da vida do PT no ano em que cumpre 33 anos de existência - apesar de não ter sido julgada a “instituição PT”.
A condenação dos Indivíduos que, no exercício de  funções dirigentes no PT cometeram equívocos indeléveis, foi capsiosamente convertida em condenação do PT. Os efeitos políticos do julgamento sobre o patrimônio ético, programático e simbólico do PT foram, portanto, profundos. E cobrarão um elevado tributo por um prolongado período de tempo.

2.
É sabido que a direita não desperdiçou a oportunidade de narrá-lo como o “mais importante julgamento nos 121 anos da história do STF na República”. Soube incrustá-lo com perspicácia no calendário das eleições municipais de 2012 – ainda que tenham sido frustrados nesse intento, como evidencia o desempenho eleitoral do PT, especialmente na cidade de São Paulo.
O padrão de unidade orgânica da direita na condução desse processo foi impecável. Por um lado, compactou o campo jurídico reacionário: o STF e o Ministério Público foram, nessa perspectiva, eficientes “células partidárias” no Poder Judiciário. O Supremo, aquela instância “Inatacável, Inalcançável e Divina”, conferiu uma falsa materialidade jurídica para a torpeza política.
Em outra frente, os segmentos da mídia hegemônica e monopólica, naturalmente concorrenciais entre si, desta feita se uniram na editorialização do processo e na narrativa subliminar contra o Partido.
A prioridade foi implicar centralmente o PT, mais além dos Indivíduos efetivamente implicados. Os Ministros do STF e a mídia foram os principais atores políticos e juízes do processo.  Fizeram militância obssessiva pela condenação do PT como instituição. O ativismo frenético de determinados ministros do Supremo, do Procurador-Geral da República e da mídia hegemônica substitiu a necessidade de maior proeminência dos partidos da oposição conservadora, que desempenharam um papel coadjuvante no combate ao PT e ao governo. Desse modo, simularam ser um julgamento “técnico”, livre de politização.
***
Nas circunstâncias análogas da história do Brasil em que houve uma confluência tão harmoniosa dos interesses das distintas estruturas reacionárias de Poder – no Judiciário, no Parlamento e na mídia hegemônica -  as resultantes foram instabilidade e fratura institucional: histerismo contra Getúlio Vargas, auto-golpe de Jânio Quadros, golpe militar de 1964, etc.
A conspiração no marco da institucionalidade, com aparência de normalidade democrática, é a modalidade contemporânea do que alguns autores chamam de “neogolpismo” [[1]] levado a cabo contra governos progressistas. Os “golpes institucionais” em Honduras e Paraguai, bem como as tentativas renitentes de desestabilização na Argentina, Bolívia e Equador são evidências deste fenômeno na região.

3.
A aplicação da “inovadora” – ou jurisprudencial, no vocabulário jurídico – tese adotada pelo Supremo para condenar os réus, foi considerada equivocada por um dos principais autores da teoria do “domínio do fato”, o professor e jurista alemão Claus Roxin [[2]].
Outros autores consideraram-no um “julgamento de exceção[[3]], pois atropelou os princípios do devido processo legal e subverteu a ordem jurídica democrática moderna advinda com as revoluções oitocentistas.
É certo, por isso, que não se tratou de um julgamento isento, imparcial e atento à técnica jurídica. Tivesse sido, por outro lado, um julgamento realizado à margem das Leis e da Constituição, não se estaria ante um processo judicial, e sim ante um regime totalitário. Não é esse, entretanto, o presente caso, ainda que seja nítido o intento conspirativo intínseco a ele.

4.
Por mais que se confirmem as inúmeras aberrações do julgamento, a realidade é que ele somente ocorreu e foi semioticamente espetacularizado porque existiu causa material concreta a motivar sua instalação: alguns ex-dirigentes do PT aplicaram os mesmos dispositivos do sistema ilegal de financiamento de campanhas adotado pelos partidos tradicionais. Considerando tais práticas, não há garantias de que os réus não seriam condenados mesmo num julgamento técnico e isento.
A partir desse fato gerador, porém, uma série de extrapolações foram feitas, e a mais estapafúrdia delas é o alegado “pagamento de mesada” regular a parlamentares durante o governo Lula – inclusive a parlamentares aliados e a integrantes do próprio PT.

5.
Determinados setores partidários, em especial os que pertencem à tendência política interna dos implicados, involuntariamente acabam reforçando a absurda idéia de que o PT foi condenado, e não exclusivamente os Indivíduos. Quando reivindicam solidariedade institucional do PT [cotização para pagamento de multas, por exemplo] como se o PT tivesse sido condenado, nada mais fazem que referendar e reforçar, no debate público, a imputação criminosa da direita contra o PT.
O conjunto do tecido partidário, mesmo sem nenhum conhecimento sobre as práticas “heterodoxas” empregadas, ainda assim foi respeitoso e solidário com os ex-dirigentes no curso desse julgamento thermidoriano. E continua sendo, pois não reivindica a aplicação das normas estatutárias relativas a casos como o presente.


6.
Concluído o julgamento no Supremo, porém, o PT não pode seguir refém do agendamento imposto pela mídia e reverberado nos parlamentos, no debate público e na vida cotidiana da sociedade. O julgamento do chamado “mensalão” está praticamente concluído – restam apenas prazos para recursos e para os trâmites finais. Mas os graves efeitos ocasionados ao PT são, desde logo, definitivos e irreversíveis, e sobre eles se deve intervir.
É momento, pois, de se refletir com uma sincera e desarmada autocrítica a respeito dos acontecimentos, de se entender as causas profundas da adoção de práticas degeneradas, e de se projetar políticas que recuperem a identidade original do PT no imaginário popular.
A realidade presente, por mais dolorosa que possa ser, oferece oportunidades importantes para se entender os acontecimentos que acometeram o Partido.

7.
No plano interno, da organização partidária, as sucessivas mudanças empreendidas nos últimos anos com o espírito de “flexibilizar” o funcionamento partidário – do financiamento à filiação – se converteram, potencialmente, em vetores para o abalo moral e ético.
A mediação é um componente vital da atividade política. Entretanto, em muitas vezes uma visão excessivamente pragmática prepondera sobre opções políticas que podem ser mais trabalhosas no curto prazo, mas que asseguram uma coerência estratégica.
Paradoxalmente, os petistas que foram julgados pereceram devido às próprias visões e critérios de construção partidária que definiram para o PT na condição de histórica maioria interna. Os acontecimentos demonstraram, finalmente, que a secundarização dos valores originais do PT é fonte de importantes problemas – mas jamais solução.

8.
Abrandando a visão socialista para tornar-se “palatável” e “moderno”, o PT abdicou da radicalidade política e se afeiçoou ao jogo político conservador e tradicional. Um dos reflexos disso foi a “parlamentarização da política”, ou seja, o estabelecimento da arena parlamentar como âmbito principalíssimo da disputa hegemônica e de garantia de governabilidade. A governabilidade congressual é considerada, nesse sentido, uma fatalidade incontornável.
Alianças exóticas e sem identidade programática substituem a coerência e a nitidez ideológica, deseducam o povo desencantando-o em relação à política, que acaba por criminalizá-la. A relativa secundarização dos espaços públicos de deliberação e de controle social por vezes é compensada pelas lógicas parlamentares de sustentação governamental.
No governo central, o PT tem explorado com timidez uma potente capacidade de mobilização da sua base social para defender e sustentar as mudanças e transformações e para contrarrestar a pressão por vezes chantagista do Parlamento. Priorizando as negociações inter-partidárias e as relações parlamentares, sempre se fica vulnerável às práticas do toma-lá-dá-cá.

9.
O adiamento na implementação de determinadas reformas durante os 10 anos no governo nacional, cobra um importante preço político. São reformas que, se não forem disputadas para que ganhem efetividade, comprometerão a construção de um estatuto democrático e plural para o país.
O Brasil contemporâneo reclama a realização das reformas tributária, política e do Judiciário. Além disso, necessita de mudanças que assegurem a democratização do acesso à produção e à difusão da informação e da comunicação pública.
De todas as mudanças que são urgentes, a reforma política e a democratização dos meios de comunicação são as de primeiro nível de prioridade.
10.
Sem reforma política com financiamento público de campanhas, com listas partidárias e com o fim das coligações proporcionais, a porta da corrupção eleitoral seguirá escancarada. Sem uma verdadeira reforma política os governos continuarão dependentes de alianças esdrúxulas, sem coerência programática e estruturadas na base do loteamento do aparelho de Estado.
O atual sistema político e eleitoral favorece o poder econômico e distorce a representação pública. É um campo fecundo para a mercantilização da política e para a deturpação da democracia. E justamente esse sistema político e eleitoral está na raiz do chamado “mensalão”.

11.
De outra parte, a preservação de um padrão permissivo do Estado em relação aos oligopólios midiáticos é fator que interdita a pluralidade e a democracia cultural. Os meios de comunicação no país pertencem a não mais que a um punhado de famílias e pastores de igreja. Essa realidade é um escândalo para um país laico, de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, 200 milhões de habitantes e portador de uma generosa pluralidade cultural.
Em alguns países europeus, o problema da regulação da propriedade dos meios de comunicação há muito foi superado. Lá, além de restrições muito efetivas ao exercício de monopólios e ao domínio de múltiplas mídias pelos mesmos conglomerados, o Estado é proprietário de emissoras públicas de rádio e televisão, para garantir a pluralidade de expressão das sociedades nacionais.
A democratização e a regulação da propriedade dos meios de comunicação [e não do conteúdo publicado] segundo o interesse público [de toda a sociedade, e não somente dos donos dos veículos] é um componente vital para a democracia, para a liberdade e para a pluralidade. Os monopólios verificados no Brasil não subsistiriam nas mais avançadas democracias do mundo.
12.
No curso de 2013, nos 33 anos de vida do PT, se realizará o PED [Processo de Eleições Diretas], e se desenrolarão os debates partidários com vistas ao 5º Congresso Nacional do Partido agendado para fevereiro de 2014.
Além dessas complexas lógicas internas, se deve prever para 2013 o aprofundamento dos ferozes enfrentamentos políticos e ideológicos que têm como horizonte a sucessão presidencial em 2014. Será um ano, pois, de continuidade e aprofundamento da “guerra anti-popular prolongada” iniciada em 2003 depois da assunção de Lula no governo central do Brasil.
O PT deve se planejar estrategicamente para fazer frente à natural exposição pública que terá ao longo desse ano. Deverá aproveitá-la para politizar o diálogo com o conjunto da sociedade, em especial com os setores que se referenciam nas políticas e práticas partidárias, assim como com os segmentos que acompanham com atenção e interesse os caminhos tomados pelo Partido.

13.
O êxito na construção do PT nesses 33 anos, que o guindou precocemente à Presidência da República, está em grande medida associado à capacidade de elaboração e persuação programática, de encantamento com o ideário de “um outro mundo possível” e de implementação de revolucionárias formas de fazer política e de gerir a coisa pública com ética e participação popular.
Esse patrimônio do PT - de confiança e esperança - é muito maior que o maior dos erros que eventualmente alguns militantes possam cometer individualmente. E é a base a partir da qual se pode lançar iniciativas que visem recuperar a imagem do Partido no imaginário social. Para isso, é necessário que se faça uma humilde autocrítica acerca dos acontecimentos que originaram o julgamento no STF, admitindo os equívocos cometidos por alguns ex-dirigentes partidários.
Nenhum evento desfavorável será capaz de subtrair a autoridade do PT para liderar uma disputa teórica e cultural na sociedade em torno de valores republicanos, democráticos e éticos. Somente com uma postura autocrítica o PT poderá assumir uma conduta ofensiva no debate público acerca da necessidade de mudanças no atual sistema político e eleitoral que impede a dignidade e a moralidade na política.

14.
Ainda não se produziu um balanço exaustivo a respeito dos 10 anos dos governos do PT no Brasil. Mas, mesmo contabilizadas as contradições e insuficiências dos governos Lula e Dilma, visíveis no padrão de acumulação capitalista, a realidade é que os governos petistas realizam o empreendimento mais generoso e civilizatório da história do país.
O ciclo do PT no governo, entretanto, não será eterno, ainda que que possa ser longevo. Por isso, é fundamental se refletir a respeito da institucionalização de mecanismos e práticas consagradores de uma nova cultura de gestão do Estado, para garantir avanços obtidos e para preservar as conquistas democrático-populares.
Na ausência de salvaguardas institucionais para a preservação desse patrimônio, num eventual revés eleitoral se poderá sentir uma desacumulação na capacidade de luta para a retomada do poder e para a acumulação de forças de um projeto transformador.
A estrutura de dominação, lapidada em 500 anos de opressão, exclusão e concentração da riqueza, provavelmente resistiria a décadas de governos petistas. A situação na Europa é exemplar: o Estado de bem-estar social, com seus 60 anos de edificação, tem sido a principal vítima na crise. Os poderosos – financistas à frente – preservam seus interesses às custas da destruição dos direitos de cidadania da maioria do povo.
O próximo período, que será de ferrenhas disputas com a oposição conservadora, permitirá ao PT difundir as conquistas dos 10 anos na condução do país. Será ocasião para conectar os avanços havidos com a necessidade de se reformar o Estado para incrustrar nele os compromissos com os direitos, com a democracia participativa, com a igualdade, com os ideais republicanos e com a justiça social.
Mereceria ser avaliado o cenário de convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte específica e exclusiva, desde que constituída numa correlação de forças favoráveis aos interesses democrático-populares, desde que possa refletir a conjuntura de avanço do campo progressista e de esquerda.

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O PT não pode se converter num tipo institucional do gênero Forrest Gump e fazer de contas que nada passou ou então que o tempo se encarregará de fazer as coisas passarem.
Na vida real - no dia-a-dia das escolas, das repartições públicas, das empresas, dos lares -, as dificuldades enfrentadas pelo PT têm uma audiência atenta. Por razões óbvias: o PT lidera o governo nacional, e é a mais auspiciosa invenção da esquerda brasileira e a mais renovada tradição democrática e socialista do Brasil.
Desprezar essa realidade não é o melhor critério político e, menos ainda, expressão de sensatez. O PT tem condições de assumir a iniciativa política na conjuntura, em especial buscando politizar o debate sobre questões essenciais para o avanço republicano e democrático. De outra maneira, será agendado pela oposição conservadora e seus braços institucionais no judiciário e na mídia hegemônica, ficando numa posição defensiva e respondendo no terreno deles.
A reiteração dos vínculos do PT com sua originalidade é o principal antídoto contra a liquefação política no contexto da “modernidade líquida”. E, também, garantia de que o Partido não se transforme num simples e mais um partido da ordem – risco alertado por Florestan Fernandes na eventualidade do PT abdicar dos valores que constituem e que justificam sua origem.



[*] Foi Coordenador Executivo das edições do Fórum Social Mundial realizadas no Brasil de 2001 a 2005.
[[1]] Ver artigo “Estados Unidos, Venezuela e Paraguai”, de autoria de Samuel Pinheiro Guimarães Neto, publicado na Agência Carta Maior, http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20570 e entrevista ao Jornal Folha de São Paulo em 29/06/2012 do mesmo autor: “Diplomata vê onda golpista na América do Sul”, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/51567-diplomata-ve-onda-neogolpista-na-america-do-sul.shtml
[[2]] Entrevista do jurista Claus Roxin à Folha de São Paulo, em 11/11/2012 – “Participação no comando de esquema tem de ser provada” - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/77459-participacao-no-comando-de-esquema-tem-de-ser-provada.shtml.
[[3]] Entrevista de Wanderley Guilherme dos Santos ao Valor Econônico de 21/09/2012 – “Mensalão será um julgamento de exceção” - http://www.valor.com.br/mensalao/2838584/mensalao-sera-um-julgamento-de-excecao-diz-wanderley-guilherme.